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DIVAGAÇÕES

Sou quase uma septuagenária. Faltam apenas onze meses e vinte e oito dias. Em alguns momentos isso me assusta. Afinal, sessenta e nove anos se completaram a menos de dois dias. Quanta coisa não vi passar por esse tempo. Quantas chegadas e partidas já não presenciei. E, no entanto, ainda estou por aqui…

Se fico assustada por saber que já não me restam assim tantos quilômetros para avançar, ao mesmo tempo me sinto abençoada. Sim, a gente enfrenta mil e uma situações que gostaria de evitar em nossa caminhada. Mas ainda estou por aqui, com tanta energia como quando tinha meus cinco, seis anos de idade…

Claro, não é a mesma coisa. Quando petizes, somos cuidadas com todo carinho por aqueles que nos trouxeram a este plano. Cada queda que levamos, mamãe e papai nos estendem a mão, nos dão colinho. E vão nos preparando para o mundo que iremos enfrentar…

Vamos crescendo. No inicio, não existe ninguém mais sábio que nossos pais. Mamãe nos ensina mil e uma novas brincadeiras… uma forma gentil de nos ensinar a como nos comportar no mundo. Papai, mesmo depois de um dia cansativo em seu trabalho, consegue alguns segundos para nos fazer sentir importantes…

A festa é quando visitamos nossos avós. O carinho que nos dedicavam ao chegarmos, era assim a coisa mais maravilhosa do mundo. Até hoje, por exemplo, me lembro de um dia próximo ao Natal, quando fomos em sua casa. Meu avô foi até a venda (naquela época não existiam mercados e supermercados… aqui no sudeste o estabelecimento era chamado de “venda”, mesmo) e trouxe algumas garrafas de Guaraná Antarctica… lembro delas porque, como era uma época especial, a engarrafadora havia adicionado a figura do Papai Noel em seu rótulo…

Meus avós trabalhavam na roça. Em certa época, em uma plantação de arroz. E você transitava pela plantação caminhando sobre os diques. Afinal, o arroz para se desenvolver, precisa crescer em uma espécie de lago. E foi em um desses diques que quase me afoguei pela primeira vez. Estávamos caminhando entre as quadras quando escorreguei e cai na água. Quem me salvou foi minha tia, que de imediato resgatou-me da água fria…

As casas dos colonos, nessa época, eram de pau a pique. Sua cobertura era de sapé. As paredes, de taipa. Era uma construção agradável. Para dormir, as visitas (nós, no caso) dispunham de esteiras, geralmente feitas de folhas de taboa. Acredita que quando meu era criança aprendi a fazer esteira de taboa? Não só esteira, mas cestos e sacolas…

Bem, é que a região onde ainda moro era sertão quando ainda criança. E perto da minha casa havia um taboal. Não dá para descrever o quanto tal era lindo, apenas quem conhece pode perceber a beleza da natureza. Claro, haviam vários animais que moravam no local. Cobras, sapos… nas águas cristalinas da nascente, guaruzinhos… acredito que você saiba o que é um guaru, não?…

Bem, a gente sempre morou próximo da água. Deste taboal corria um regato que desaguava na reprêsa de Billings. A água era tão limpinha, que a rua ganhou o nome de “Córrego Azul”. A vegetação à sua volta era simplesmente um espetáculo da natureza. Ah, sim… haviam duas coisas marcantes com relação a esse taboal. A primeira era que ele ficava ao pé de um morro, que tinha o nome de Rua do Sol. A segunda? Bem, ali era uma colônia de famílias russas… aliás, era assim que aquela região era conhecida… Vila Russa…

A casa onde eu morava quando criança não tinha piso, de inicio. Na verdade, nenhuma casa da região tinha. Era terra batida. Claro, quando chovia, era a maior lameira dentro de casa. Se ela era de pau a pique também? Não, a gente estava na Cidade Grande. Era feita de tijolos e coberta de telhas. Os tijolos eram assentados com barro. Havia a marcação das janelas, mas elas chegaram muitos anos depois, junto com o reboco das paredes e o piso no chão…

Claro, as coisas não eram tão fáceis para nós. Mas mesmo hoje não são, não é mesmo? O que posso dizer é que, nesses sessenta e nove anos que por aqui permaneço, vi muita coisa mudar neste mundo.  Algumas coisas mudaram para melhor. Outras, nem tanto. Mas assim é a vida, não é mesmo? Um dia após o outro, sempre com uma novidade à nossa frente…

Não me sinto velha. Aliás, minha alma me diz que ainda sou adolescente. Embora meu corpo insista em me desmentir a todo instante. Fazer o que, não é mesmo? Bem, como não me vejo refletida pelo espelho constantemente, mantenho a ilusão de que os anos não me afetaram. E é claro que fico feliz quando alguém me diz que não pareço ter a idade que tenho…

Não sei quanto tempo me resta neste plano. Desejo, do fundo de meu coração, aqui permanecer até que minha netinha esteja preparada para seguir seu destino neste plano. E que ela se lembre de mim por muito tempo depois que eu partir. Assim como espero que meus filhos também me tenham sempre em sua lembrança…

É, hoje estou um pouco carente… sinto o desejo de um abraço bem carinhoso e que a minha cara metade me diga “te amo”… Bem, eu sei que ela me ama. Mas saber é uma coisa… ouvir dos lábios da outra pessoa é diferente… é muito mais gostoso, não é mesmo? Enfim, essa é a vida…

Tania Miranda  –   Brasil  –   22/10/2026

Tania Miranda
Tania Miranda

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, "Tirésias, a dualidade da alma humana"(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e "A volta do Justiceiro", romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog... (taniamirandablog.blogspot .com)... sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade...

Tania Miranda

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, "Tirésias, a dualidade da alma humana"(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e "A volta do Justiceiro", romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog... (taniamirandablog.blogspot .com)... sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade...

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