COMO NOSSOS PAIS….
Há um termo que nunca sai de moda. Choque de gerações. Mas… o que vem a ser isso, realmente? Claro, há mil e uma explicações, tentando explicar algo que é tão simples, mas ao mesmo tempo, complexo quando se procura compreender a profundidade de tal conceito. E por quê? A resposta não é tão simples…
A cada novo núcleo familiar formado nasce a esperança de que costumes arraigados naqueles dois seres que se uniram sejam banidos de uma vez, e que tudo se inicie do zero, onde “o amor e a compreensão sejam a bússola que irá conduzir a criação e a formação do novo indivíduo que será entregue para o casal em questão”… falando assim, fica algo lindo demais, não é mesmo? Porém, a vida é muito mais que frases bonitas. Ela é feita de erros e acertos, e mesmo que não queiramos admitir, o caminho que todos seguimos é aquele que nossos antepassados trilharam antes de nós…
Existe uma palavrinha que resume tudo aquilo que seguimos, mas que procuramos não pronunciar… “Tradição”. E o que vem a ser “tradição”? Bem, vamos lá… essa palavrinha capciosa vem do latim. Seu verbete original é “traditio, de tradere”, e significa simplesmente “entregar” ou “passar adiante”… traduzindo… nada mais é que a “transmissão de valores, costumes, crenças, doutrinas e práticas de uma geração à outra…
O que isso quer dizer? Que você é condicionado, desde o berço, a seguir determinadas regras, e as faz inconscientemente. Porque determinadas ações se tornam automáticas. E você acaba por replicar ações de gerações anteriores, mesmo que antes tenha protestado contra estas…
Sim, esse é o choque de gerações… a discordância de alguns conceitos aplicados à família da qual você faz parte. é quando você é contra determinada ação porque simplesmente não consegue entender o fundamento da mesma. E a ironia da coisa… mais tarde você irá replicar a mesma ação que condenou a tempos atrás…
Quando dois jovens se unem para construir uma vida em conjunto, seu sonho é criar um mundo onde tudo aquilo que consideravam errado em sua família original será expurgado de suas vidas. E quando chegam seus filhos, prometem a si mesmos que agirão de forma diferente daquela que seus pais. Claro, não somos clones daqueles que nos deram a vida. Então há diferença na forma de ver o mundo. Porém…
As semelhanças em nosso modo de agir frente à família que fundamos e aquela da qual nos originamos será algo que jamais nos abandonará. Não que desejemos replicar em nosso ninho as mesmas regras que criticávamos constantemente. E realmente não as replicamos. O que fazemos é uma adaptação da tradição de nosso antigo núcleo com as tradições de nosso par. E aí tudo acabará indo por água abaixo…
Sim… um dos maiores problemas que enfrentamos quando tentamos mudar certos conceitos e preconceitos é justamente as ideias arraigadas em nosso meio. Por mais que tentemos, não é simples quebrar as correntes que nos mantém presos a ideias do passado, porque desde o berço fomos ensinados que a vida tem um fluxo a seguir, e não nos é permitido romper tal concepção…
Como eu disse, cada nova família cria um código de ética particular, derivado às diferenças de como o mundo é visto por ambas as partes. Cada um trouxe ideias antigas para a união e a primeira tarefa que estes devem realizar é torná-las palatáveis para ambos os cônjuges… afinal, será baseado nessa visão construída após a união da tradição de cada um que determinarão o norte a seguir. Mas nenhum dos dois perceberá que estará replicando as ações que até pouco tempo condenava…
O primeiro filho do casal servirá como experimento de como conduzir a criação de um novo integrante da sociedade. Dependendo de como os dois foram ensinados quando infantes, replicarão o mesmo sistema educacional, adaptado conforme as visões diferentes de cada um sobre o controle daquilo que lhes foi ofertado quando eram eles os pequenos… abolir castigos físicos nem sempre significa que deixaram de usar a violência como ferramenta educacional… afinal, palavras machucam tanto quanto um tapa, por exemplo. E, como a violência física, a psicológica também costuma deixar sequelas que poderão acompanhar a pessoa por toda a sua vida…
O problema real? Os genitores não agem por mal. Em sua cabeça, estão tentando fazer o melhor pela sua criança. Por mais esdrúxulo que possa parecer, tudo o que os novos pais fazem é pensando no conforto futuro de seu filho. E não percebem que, como seus pais, tomam atitudes que não educam realmente. Apenas machucam, enquanto adestram o futuro cidadão para agir como deste é esperado.
E quando este atingir a adolescência, irá contestar seus pais, exatamente como estes contestaram aqueles que vieram antes deles. Mas isso não quebrará este círculo vicioso. Transformá-lo em um círculo virtuoso é trabalho para diversas gerações. O problema é que, mesmo depois de darem alguns passos rumo ao futuro, as ideias aplicadas por gerações passadas parecem atraentes, com soluções facilmente aplicáveis, podendo resolver problemas que, à primeira vista, não tem solução… e aí volta tudo à estaca zero…
Somos como nossos pais… tivemos uma infância pontuada por momento felizes e outros nem tanto, passamos pela adolescência levantando bandeiras que acreditávamos piamente que iríamos seguir e acabamos por constituir um padrão de vida que não se diferencia muito daquele de nossos antepassados… e muito daquilo que criticávamos agora faz parte de nosso repertório… porque descobrimos que a vida é mais que frases bonitas e passeatas coloridas…
Tania Miranda – Brasil – 06/08/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
