BRASIL CABOCLO
No amanhecê na minha roça,
Vem surgino um crarão
Roceiro deixa a paióça
Prá cuidá da prantação
O carro de boi chorano
No arto do chapadão
Os passarinho cantano
Começando um baruião
Esse é o Brasir cabocro
Esse é o meu sertão
(Tonico – Walter Amaral)
Quando olhamos o passado, a sensação que temos é que tudo era melhor antigamente. Nossas lembranças de infância nos remetem a isso. Porque era uma época em que nos sentíamos acolhidas, protegidas. E apesar da penúria, da falta de recursos, tudo parecia mais tranquilo…
Claro que essa impressão que ficou gravada em nossa mente tem muito a ver com a idade que tínhamos, então. É bem verdade que a vida no campo, onde podíamos colher as frutas diretamente da natureza e as verduras brotavam no chão, nos dando fartura mesmo que minguada à nossa mesa, nos fazia felizes. Eu sei que dizer “fartura” e “minguada” na mesma frase parece um paradoxo… mas não é, por mais estranho que pareça…
Quando o galo cantava pela primeira vez na madrugada, o homem do campo… e a mulher também, é claro… já se preparava para mais um dia de lida na roça. Claro que a mulher sempre se levantava mais cedo, cuidando do café não só para seu parceiro como também das crianças que compunham a família. Depois de tomarem seu café, às vezes acompanhado por uma broa de milho ou um biscoito tão duro quanto uma pedra, lá iam em direção ao roçado, ou ao campo, dependendo de sua tarefa na fazenda. Se o trabalho do homem era a lida de gado, se era leiteiro, por exemplo, lá ia para o curral, separar as vacas na mangueira para iniciar sua tarefa.
Quando o trabalho era no campo, procuravam chegar bem cedo no local da plantação, pois geralmente ganhavam por produção… quanto mais trabalhavam, mais recebiam no final de semana. Não dava grande coisa, pois a paga nunca era generosa… mas pelo menos dava para a compra semanal e até para guardar uma sobrinha para emergências ou a romaria de final de ano…
O gado era manipulado por pessoas… seu transporte, tanto para corte como para transferência de invernada, era conduzido por um pequeno grupo de vaqueiros, chefiados por alguém mais experiente, que recebia o título de boiadeiro. Era dele a responsabilidade de organizar não só o transporte do gado, como o recrutamento da equipe que o acompanharia…
Na roça, começando a trabalhar assim que os primeiros raios de sol permitiam a visibilidade necessária, a enxada acariciava a terra, procurando deixá-la pronta para receber as sementes que ficariam repousando na terra macia… dali a algum tempo, o broto surgia em direção ao céu, anunciando uma nova vida, um novo ciclo a se iniciar…
Logo que a barriga começava a reclamar, o caboclo ficava a olhar para o estradão, onde alguém de sua morada com certeza chegaria com sua marmitinha… o arroz com feijão, acompanhado com uma coxa ou asa de galinha iria recompor suas forças para continuar a jornada até que o sol se posse… claro que mais tarde, lá pelas quatro horas, o cafézinho frio, acompanhado com alguns bocados de farinha de milho, iria ajuda-lo a chegar até o final do dia com energia suficiente para, quem sabe, seguir até a venda no arraial para tomar uma pinguinha, que era para espantar a friagem que a noite com certeza traria…
Nessa altura do dia, a mulher que trabalhava ombro a ombro na roça já tinha se dirigido à mata junto com outras amigas, conversando, trocando experiências. Era hora de, junto com algumas crianças que as ajudavam em seu trabalho roceiro, buscar o combustível que possibilitaria cozinhar e até esquentar a água que usaria para lavar os pés… o banho geralmente ficava para o final de semana, pois o cansaço era tanto que depois de comer a refeição noturna todo mundo ia descansar, pois a rotina se apresentava pesada…
Claro que o combustível era a lenha, galhos secos que caiam no meio da mata. Quando não havia material suficiente, o machado cantava nas árvores mais velhas, onde a lenha seca garantiria fogo, luz e calor por um dia ou dois… logo teriam que se reabastecer…
Enquanto as mulheres escolhiam as árvores que iriam derrubar para levar para casa, a petizada se entupia com as frutas silvestres que encontravam no caminho… maracujás, morangos, amoras, joás… ao chegar a hora de levarem seu feixe de lenha, estavam satisfeitos, pois já tinham matado a fome com algo que realmente apreciavam…
Ao chegar em casa, as mulheres… e as crianças… se dirigiam à horta, onde colhiam os legumes e as verduras plantada para seu consumo. Geralmente o patrão permitia que seus colonos tivessem uma cultura de subsistência, com algumas plantas e animais de pequeno porte… geralmente galinhas e patos… em alguns caso, até mesmo um pequeno chiqueiro, onde o colono engordava um porquinho para comer no Natal…
Olhando assim, com essa visão distante, tudo parecia lindo e maravilhoso. Sabemos que não era. Mas é tão gostoso imaginar que aquela vida tinha algo que desejamos ardentemente , não é mesmo? Quando ouvimos os mais velhos falarem com saudades de seu tempo na roça, de suas andanças pelo sertão, com aqueles olhinhos brilhantes…. a sensação de que um momento feliz que passou e marcou sua alma é a que fica para nós… e ficamos com um pouco de inveja dessas que viveram em um mundo que não mais existe nos dias de hoje… pois este parecia ser o Paraíso na Terra, onde a ganância não tinha vez entre as pessoas…
É tão bom pensar assim, não é mesmo? Afinal, se a Lenda é mais linda que a Realidade, vamos falar sobre a Lenda para as pessoas…
Tania Miranda – Brasil – 24/04/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
