Fides montes movet
Tem uma série no streaming chamada “Rosário Tijeras”. Conta a história de uma mulher, desde a sua infância até sua vida adulta. Está na quinta temporada. Bem, o que ela tem a ver com o título do texto de hoje? Ela é uma devota. Acredita piamente na intervenção divina em seu dia a dia. Acredita que todas as suas ações são abençoadas pela Virgem, sua protetora. O detalhe? É uma criminosa, que depende de matar para sobreviver…
Claro, há toda uma explicação para essa violência vivida pela personagem. A começar pelo local onde cresceu. Pai ex presidiário, separado de sua mãe, que a criou e aos seus irmãos sozinha. Irmão mais velho, envolvido no mundo do crime, mas tentando convencer a menina a não entrar em seu mundo, pois deste não haveria como retornar. E um irmão caçula “PCD”, com uma série de problemas de saúde. Vivendo em um ambiente onde não cair em tentação seria um milagre. Pois a violência se apresenta a todo segundo de sua vida…
Rosário é uma “anti heroina”. Está no meio do crime e ao mesmo tempo tempo tenta combater as injustiças que percebe ao seu redor. E tudo começa quando uma colega de sua escola é sequestrada por alguns capangas de um ricaço que deseja aproveitar-se sexualmente da garota. Depois de seviciá-la, a mata e descarta seu corpo em um depósito de lixo. Rosário decide vingar a morte da amiga…
É a partir desse episódio que a protagonista ganha seu apelido… “Tijeras”… ou tesoura, em espanhol. E é a partir desse momento que passa a fazer parte do mundo do crime, do qual seu irmão tão desesperadamente tentava afastá-la, para a proteger de uma sociedade onde, depois de entrar, se descobre que não há porta de saída…
É também a partir desse momento que dois objetos passam a fazer parte de seus instrumentos diários… uma pistola dourada e uma corrente abençoada em alguma missa que ela tenha participado. E, antes de partir para qualquer missão, ajoelha-se frente à imagem de sua santa de devoção e faz sua oração, pedindo a esta que a proteja e a ajude a cumprir aquilo que a ela foi determinado…
Desde então a personagem vive um paradoxo… de certa forma mantem-se pura, pois essa é a finalidade de suas orações… e ao mesmo tempo é a Nemesis, responsável por distribuir justiça, equilíbrio e vingança divina…
Porque estou falando da Tijeras? Porque a muito essa visão deturpada da religião faz parte de nossa sociedade. Há igrejas onde os “pastores” abençoam seus acólitos antes de saírem para cada missão em nome do que chamamos de “mal”. Mas em sua crença, estão apenas cumprindo os desígnios divinos. Ou seja, quando uma munição “abençoada” atinge seu alvo, o atirador não foi culpado por tal ação. Apenas foi um instrumento usado pela Inevitável…
Seguindo essa filosofia, ninguém é culpado de nada que acontece em nosso plano. Somos apenas instrumentos usados para um propósito maior, que foge à nossa compreensão. E esse é um pensamento perigoso para nossa própria integridade. Afinal, se aceitarmos que tudo o que ocorre de bom e de mal já foi escrito em algum lugar, e que não somos responsáveis pelas nossas ações, a barbárie já dominou a muito nossos pensamentos…
Tania Miranda – Brasil – 28/06/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
