O Caso Guarapiranga: o mistério que aconteceu na nossa represa
Em 1988, um homem foi encontrado mutilado na beira da represa, aqui na Zona Sul de São Paulo. Mais de três décadas depois, nenhuma explicação satisfaz. E a história volta à tona enquanto o Brasil debate um OVNI no Paraná.
Conexão com o presente
Em 31 de maio de 2026, o influenciador paranaense Mayk Leão filmou luzes não identificadas sobre sua chácara em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. Os vídeos viralizaram, levando o criador de conteúdo de 46 mil para mais de 2 milhões de seguidores em dias. A FAB informou que “nenhum objeto foi identificado pelos radares de defesa aérea” naquela data. O episódio trouxe de volta ao debate um caso muito mais antigo — e geograficamente mais próximo de nós: o Caso Guarapiranga.
A Represa de Guarapiranga abastece mais de 3,7 milhões de pessoas nas Zonas Sul e Sudoeste de São Paulo. Quem mora aqui conhece essa água — ela chega às torneiras de Alvarenga, Pedreira, Cidade Ademar, Jardim São Luís e dezenas de outros bairros da quebrada. Mas há algo que a maioria não sabe: nessa mesma região, em 29 de setembro de 1988, aconteceu um dos casos mais perturbadores e inexplicados da história do jornalismo policial e da ufologia brasileira.
Um homem foi encontrado morto. Mas as condições da morte eram tão fora do comum que o caso dividiu médicos, delegados, pesquisadores e toda a comunidade ufológica internacional. Mais de três décadas depois, as perguntas centrais continuam sem resposta.
Ficha do Caso Guarapiranga
Vítima: Joaquim Sebastião Gonçalves
Idade: 53 anos
Data: 29 de setembro de 1988
Local: Bairro Bororé (Bororó), região do Grajaú — braço da Represa Billings, Zona Sul de São Paulo
Boletim de Ocorrência: BO nº 2.429/88 — 25ª Delegacia de Polícia (Santo Amaro)
Inquérito Policial: IP nº 381/88
Laudo necroscópico: Nº 645/88 — IML do Estado de São Paulo
Status: Causa mortis: hemorragia aguda e múltiplos traumatismos. Origem das mutilações: não esclarecida oficialmente
Quem era Joaquim Sebastião Gonçalves
Joaquim era um aposentado de 53 anos. Sofria do mal de Chagas e de epilepsia, fazendo uso do medicamento Gardenal. Segundo investigações posteriores, bebia com frequência. Não morava perto da represa, mas era pescador de hábito — conhecia bem a região do Grajaú e seus braços d’água.
Naquele setembro de 1988, o Brasil estava em festa: a nova Constituição havia sido promulgada dias antes, em 5 de outubro. Era um momento de esperança para o país, especialmente para as comunidades periféricas que tanto lutaram por direitos. Enquanto isso, na Zona Sul, Joaquim desaparecia.
Ele havia atravessado, a nado e apenas de cueca, cerca de 80 metros de um braço da Represa Billings, no Jardim Recanto do Sol, no bairro Bororó. Deixou sua roupa escondida numa maleta dentro da mata. Do outro lado, foi pescar. Estava desaparecido há três dias quando foi encontrado.
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Represa Guarapiranga — reservatório que abastece mais de 3,7 milhões de pessoas na Zona Sul e Sudoeste de São Paulo. O caso aconteceu em braço da Represa Billings, área contígua, no bairro Bororé/Grajaú. (Foto: domínio público)
O que o laudo registrou — e o que não se explica
Um garoto que caçava passarinhos com estilingue na mata foi quem encontrou o corpo — coberto de urubus. Saiu correndo, deu a volta pela margem da represa e avisou moradores. A 25ª Delegacia de Polícia de Santo Amaro foi acionada, assim como o Corpo de Bombeiros. O Sargento Milton de Souza Guedes comandou a equipe que atravessou a represa com um barco emprestado por um morador que alugava embarcações para pescadores.
O laudo necroscópico nº 645/88, assinado pelos médicos legistas Dr. Jorge Pereira de Oliveira e Dr. Cláudio Roberto Zabeu, do Instituto Médico Legal (IML) do Estado de São Paulo, registrou uma série de achados que perturbaram até profissionais habituados a cenas violentas:

O Delegado da 25ª DP encaminhou um documento ao IML com quatro perguntas sobre o caso, entre elas: que instrumento poderia ter causado aquelas incisões? Os órgãos foram mesmo removidos por aspiração? As manchas escuras ao redor dos ferimentos eram reação vital? Poderia ter sido ação de animais?
“É sugestiva de modus-operandi a incisão em partes moles e em orifícios naturais mediante aspiração. Tal quadro deve ser manifestação comportamental de insano ou outra hipótese: ritual macabro.”
Laudo necroscópico nº 645/88 — IML/SP
O Delegado também perguntou ao IML se existiam registros de casos semelhantes. A resposta foi: “Sim. Existem vários casos semelhantes.” Essa resposta, quando o caso ganhou publicidade em 1993, foi amplamente usada por pesquisadores como evidência de que havia um padrão. Mas nunca foi aprofundada pelos canais oficiais.
A investigação complementar — o perito Del-Campo e o cachorro
Após receber o laudo do IML, o Delegado Dr. Marco Antônio Desgualdo, da Equipe “F” da DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa), solicitou ao Instituto de Criminalística (IC) um laudo complementar. O Perito Criminal Dr. Eduardo Roberto Alcântara Del-Campo foi designado para o caso.
Del-Campo retornou ao local acompanhado pelo Sargento Guedes, do Corpo de Bombeiros. O bombeiro confirmou em depoimento: quando chegou ao local, havia cerca de 20 urubus sobre o corpo, fisicamente em contato com a vítima. Não sobrevoando — em cima, comendo.
Para testar a hipótese de ataque por predadores, o Dr. Del-Campo requisitou um cachorro morto à Prefeitura e o colocou no mesmo local onde o corpo foi encontrado. Acompanhou o processo por três dias. Em menos de dois dias, urubus e ratos haviam consumido praticamente tudo — inclusive os ossos. Uma foto do experimento foi anexada ao processo.
O Segundo Tenente Elifas Morais Alves, que também participou do resgate, confirmou que o corpo havia sido atacado por urubus. Ficou “surpreso e indignado” ao saber que o caso havia sido divulgado como ataque extraterrestre. Acrescentou que, naquela época, era comum a desova de cadáveres nas margens das represas Billings e Guarapiranga — a violência da época, especialmente os grupos de extermínio ativos na Zona Sul, gerava um volume alto de corpos encontrados em condições precárias.
A conclusão do Dr. Del-Campo: Joaquim Sebastião Gonçalves foi vítima de ataque de predadores necrófagos. A hipótese mais provável é que a mistura do medicamento Gardenal com álcool tenha provocado o desmaio ou uma crise epiléptica dentro da mata. Sem conseguir se mover, foi atacado vivo por urubus e ratos.
A versão ufológica — e por que ela não foi embora
Em setembro de 1993 — cinco anos após a morte de Joaquim —, a Revista UFO publicou em sua edição nº 25 uma reportagem da pesquisadora espanhola radicada no Brasil Encarnación Zapata Garcia. O título: “Será essa a temida sequência das mutilações de animais?”. A matéria circulou pelo mundo e o caso ganhou o nome pelo qual ficou conhecido: Caso Guarapiranga.
Encarnación havia chegado ao caso por meio do dermatologista paulista Rubens Góes, cujo primo era perito criminal do Estado de São Paulo e havia fotografado o corpo. As sete fotografias coloridas do cadáver foram a base da investigação.
A pesquisadora comparou as mutilações encontradas no corpo de Joaquim com padrões de mutilação de animais — especialmente bovinos — registrados em todo o mundo e associados à fenomenologia ufológica. Os pontos de semelhança que ela destacou eram inquietantes: as perfurações circulares nas axilas eram idênticas às encontradas em casos de mutilação de gado nos Estados Unidos; a ausência total de órgãos por “aspiração” era padrão documentado em dezenas de casos de bovinos; as incisões nas orelhas e nos olhos seguiam o mesmo protocolo. A Revista UFO voltaria a publicar sobre o caso nas edições nº 32 (setembro de 1994) e nº 37 (abril de 1995).
“Os órgãos haviam sido ‘aspirados’ por pequenos furos simetricamente recortados no corpo da vítima. Apenas para lembrar: no caso de animais como vacas e bois, seus estômagos, de 50 centímetros, são sugados através de buracos de 3 centímetros.”
Cláudio Suenaga — entrevista com Encarnación Zapata Garcia, 2021
Um ponto que a versão cética nunca conseguiu explicar completamente: as manchas de coloração escura ao redor dos ferimentos. Os médicos consultados pelo delegado não souberam atribuir causa. A carbonização em partes do maxilar também gerou debate — a versão cética atribui a um possível raio, mas não há registro de tempestade nos autos policiais da data.
Outro ponto questionável: a simetria das perfurações nos pés — mesma posição, mesmo tamanho em ambos. E nas axilas — idênticas, com margens perfeitamente uniformes. Predadores naturais, especialmente urubus, não costumam produzir padrões simétricos em locais específicos do corpo.
As três teorias em disputa

Linha do tempo do caso
29 set. 1988
O corpo é encontrado
Joaquim Sebastião Gonçalves, 53 anos, é encontrado no bairro Bororé, Grajaú. BO nº 2.429/88 registrado. Laudo necroscópico nº 645/88 produzido pelo IML.
1988–1993
Cinco anos de silêncio
O caso tramita na 25ª DP de Santo Amaro sem repercussão pública. O processo é considerado público, mas permanece sem visibilidade.
Set. 1993
Revista UFO publica o caso
Edição nº 25 da Revista UFO traz a reportagem de Encarnación Zapata Garcia. O caso vira tema internacional na comunidade ufológica.
1994–1995
Debate se intensifica
Revistas UFO nº 32 e nº 37 publicam novos artigos. Encarnación rebate críticas. Ufólogos nacionais e internacionais se dividem.
Abr. 1997
Capa do Notícias Populares
O jornal paulistano publica o caso em capa, amplificando o debate para o público geral. O médico-legista Badan Palhares diz a um repórter que as lesões são “compatíveis com roedores”.
Out. 1997
Revelação no Programa do Ratinho
Pesquisador Saulo Gomes revela ao vivo que o caso não ocorreu na Represa Guarapiranga, mas em braço da Represa Billings. O nome “Caso Guarapiranga”, porém, já estava consagrado.
2000s–2010s
Investigação de Claudeir e Paola Covo
O casal de pesquisadores do INFA/INPU realiza investigação detalhada: localiza testemunhas, bombeiros e documentos. Identificam a vítima pelo nome completo e propõem a versão predadores como conclusão.
Jun. 2026
O Paraná reacende o debate
OVNI filmado em Campo Largo (PR) viraliza. O Brasil volta a discutir fenômenos não identificados. O Caso Guarapiranga ressurge nas conversas — e a Alvarenga TV traz o caso de volta para a Zona Sul, onde ele sempre pertenceu.
Atualidade
Campo Largo, Paraná · 31 de maio de 2026
O influenciador Mayk Leão, 31 anos, técnico de enfermagem e criador de conteúdo sobre resgate de animais, filmou luzes não identificadas sobre a área de mata fechada em sua chácara em Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba. Nos dias anteriores, relatou comportamento atípico dos mais de 280 animais da propriedade — cães, galinhas, cabras e cavalos extremamente agitados — e a cerca elétrica derrubada sem explicação.
Os vídeos viralizaram e Mayk saltou de 46 mil para mais de 2 milhões de seguidores em poucos dias. A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do DECEA, emitiu nota afirmando que “nenhum objeto foi identificado pelos radares de defesa aérea ou reportado por aeroportos locais” no dia 31 de maio. A ABIN negou ter entrado em contato com o influenciador, desmentindo um suposto documento que circulou nas redes.
O episódio não foi o único no Sul do Brasil recentemente: em janeiro de 2025, um OVNI foi avistado sobrevoando o Lago de Olarias em Ponta Grossa (PR), com registros em vídeo em diferentes municípios paranaenses e em Pedreira (SP) entre novembro de 2024 e janeiro de 2025.
A diferença entre o caso do Paraná e o Caso Guarapiranga é simples: o de Curitiba tem vídeos, mas não tem laudo. O de São Paulo tem laudo, mas as perguntas centrais nunca foram respondidas.
O que fica para a Zona Sul
O Caso Guarapiranga foi engolido pelo sensacionalismo. Saiu da Zona Sul para se tornar pauta de revistas de OVNI e programas de televisão voltados ao entretenimento do mistério. A vítima, Joaquim Sebastião Gonçalves, virou personagem secundário na própria história.
O que a Alvarenga TV quer trazer de volta é a perspectiva territorial: isso aconteceu aqui. Na mesma represa que abastece a nossa torneira. Na mesma mata que margeamos quando vamos ao Bororé. No mesmo braço d’água que pescadores daqui cruzam até hoje.
As perguntas que ficaram sem resposta não precisam ser respondidas por ufólogos nem por céticos. Precisam ser respondidas por investigação jornalística séria, por acesso a documentos públicos e por ouvir quem estava na região na época — moradores, bombeiros, policiais, pescadores.
Se você tem informação sobre o caso, ou conheceu alguém que viveu ou trabalhou nessa área no final dos anos 1980, fale com a Alvarenga TV. Essa história é da Zona Sul. E a gente não deixa a história da periferia ser esquecida.
Fotos:
Fonte: https://fenomenum.com.br/o-caso-guarapiranga/[/caption]
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Nascido e criado na Zona Sul de São Paulo, Formado em Tecnologia e fundador do coletivo Alvarenga TV.
