VAMOS FALR DE SERES MITOLÓGICOS
Hoje vou mudar um pouco meu foco. Vou falar de um ser mitológico. Alguém que não existe em realidade, mas que muitas pessoas acreditam piamente que este não só é real como também interfere em alguns momentos de nossa vida. Claro que, conforme a “civilização” vai avançando sobre a vida do campo, essas histórias acabam se perdendo nas brumas do tempo… e chega uma hora que precisamos importar lendas de outras plagas, pois as nossas vão ficando esquecidas, esmaecidas como uma foto a muito guardada no fundo do baú…
Somos um povo que adora importar crendices, menosprezando a beleza de nosso próprio folclore. É só notarmos que importamos vários “monstros” de outras culturas. Os nossos não são tão assustadores quanto as criaturas importadas de outras terras. Verdade que, como tais seres realmente não existem, não faz muita diferença se são de nosso torrão natal ou não. Porém… e sempre há um porém… ao darmos voz a uma lenda de nossa terra, acabamos por conhecer um pouco mais de nossa cultura e assim passamos a compreender porque trilhamos o caminho que trilhamos…
Temos vários personagens fantásticos em nossa história, todos eles ofuscados pelo brilho daqueles importados, uma vez que estes já vem prontos para o consumo, e não precisamos lançar mão de nossa imaginação para vê-los em ação… e garanto que com isso perdemos muito de nossa história… sim, quando deixamos de ouvir as histórias que nossos antigos nos contavam, nossa origem vai se perdendo aos poucos, até que chega um momento em que não sabemos mais quem somos em nossa essência… passamos a ser um povo sem origem, sem passado…
Um exemplo clássico de perda de identidade é quando conhecemos mais a história de outras plagas que da nossa… quando vamos esquecendo quem construiu nossa civilização, nossa cultura… e passamos a demonizar aqueles que vieram antes de nós e que, de uma forma ou de outra, lutaram para que pudéssemos desfrutar de nosso mundo hoje… pois sem estes nosso mundo, nossa cultura, não existiria…
Temos como senso comum condenar as ações de nossos antepassados históricos. Nos esquecemos que a ética é um conceito abstrato e que cada geração vai construindo a sua. Não estou dizendo que devemos permanecer estáticos, seguindo uma linha de conduta comum a tempos atrás. Não, de forma alguma. Somos seres inteligentes e nossa principal característica é sem dúvida nossa capacidade de evoluir. E evoluir é principalmente ter uma visão crítica do mundo que nos cerca, corrigindo as imperfeições que fazem parte de nossa rotina… porém não devemos ser críticos em demasia com aqueles que já se foram, não podemos condenar seus atos baseados em nossas convicções de hoje, porque eles viveram em uma outra época, onde a linha de pensamento era diferente de nossa maneira moderna de pensar…
Quando condenamos uma pessoa que a muito já partiu porque suas ações não se encaixam em nossa forma de considerar o certo e o errado, nos esquecemos de que, em sua época o mundo era diferente… a forma de pensar era outra, as ideias eram contrastante como a nossa maneira dos dias de hoje… um exemplo? Os desbravadores do sertão… não fossem esses homens, que hoje condenamos apaixonadamente, provavelmente não estaríamos caminhando por esse plano… não aqui onde estamos, com certeza. E se você for como eu… uma mestiça… nem mesmo teria nascido…
Mas o assunto que eu ia abordar era outro… ia falar de um ser mitológico que povoava a imaginação das pessoas a algumas décadas… claro que essas histórias eram contadas ao pé do fogão pelos chefes de família, que juravam de pés juntos que todo “causo” era a essência da verdade, e que nenhum ponto da história era fruto de sua imaginação…
Estou falando do Saci… aquele ser de uma perna só, que anda nu, pilotando um redemoinho e fazendo traquinagens… nem bom nem mau… apenas um ser brincalhão, que não pesa seus atos…
O saci se manifestava aprontando mil travessuras diferentes. Algumas, bem prejudiciais, outras, apenas molecagem, mesmo. E então comecei a pensar… o saci tem um quê de político. Afinal, mesmo quando tem boas intenções, um político raramente consegue realizar algo em prol de sua comunidade. Ele sempre tem uma carta na manga que irá beneficiá-lo mais que ao grupo que diz que está ajudando. É mais ou menos como o saci… sempre uma travessura nova e no final, deixa apenas o resultado de seu “maravilhoso” trabalho a recordar a todos que ele passou por ali…
Bem, devemos nos precaver. Chega de dar nosso voto para os “sacis” que nada real nos oferecem. Chega de nos encantarmos com seu assobio, tentando adivinhar onde realmente tal entidade se esconde… é o famoso “se eu canto perto, estou longe… se canto longe, estou perto”…
Vamos dar aos “sacis” da vida real o mesmo castigo que os antigos davam para o ente fantástico… roubar seu barrete e, assim, assumir o controle sobre suas ações. Mas, como nas lendas, devemos redobrar o cuidado, afinal. Pois enquanto estiver aprisionado por nosso encantamento esse procurará encontrar uma saída. E se conseguir escapar, pobres de nós… acabemos por pagar por nossa ousadia com juros e correção monetária. Pois, embora teoricamente eles estejam a nosso serviço, conseguem nos “enrolar” de tal forma que nos fazem seguir suas ideias, dando aval a suas sandices… como já falei, não precisamos importar “monstros” para nosso torrão natal… afinal, temos muitos “sacis” para observar e tentar não nos tornar vítimas de suas estripulias…
Tania Miranda – Brasil – 08/02/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
