SER CRIANÇA TRANS NÃO É FÁCIL
O policiamento sobre as e os trans se inicia já na primeira infância. Designado seu sexo, cada um recebe tratamento condizente com aquilo que deste se espera. Mas somos seres complexos e, por mais que se tente programar a forma de cada um ver o mundo, tal não é possível… afinal, já fomos devidamente programados durante nossa concepção. E é justamente por esse motivo que iremos passar por vários dissabores enquanto formos nos desenvolvendo…
Claro que há níveis variados de problemas enfrentados. Cada uma, por estar inserida em um ambiente específico, terá que superar determinadas situações que em nada se parecerão com as de outra sua igual. Isso tem muito a ver com a personalidade de cada pessoa, além, é claro, do ambiente em questão, conforme já mencionado.
Há famílias e famílias. Todas elas desejando o bem estar e o sucesso de seus descendentes. O problema é como cada um encara a forma de se chegar a esse patamar…
Não podemos nos esquecer de que as pessoas são reflexo do passado. Em outras palavras, muito do preconceito de gerações anteriores vêm impregnado na concepção daquilo que é certo ou errado para estes. Os conceitos são tão arraigados na Sociedade que a maioria se nega para poder se enquadrar naquilo que dela é esperado. Afinal, de certa forma, ela é apenas uma peça que deve executar determinadas tarefas pelo Bem Maior, mesmo que este em nada a beneficie. Pois o indivíduo não é importante para o Todo…
Ao se anular, o sujeito está apto a lutar por aquilo que acredita ser a Verdade Universal, pois não se dá conta de que o conceito de “verdade” é volátil… aquilo que hoje é líquido e certo, amanhã pode não o ser mais, por mais esdrúxula que tal afirmação possa parecer.
E é aí que começa o sofrimento daqueles que não correspondem ao modelo de comportamento homologado pela sociedade. Porque, desde a mais tenra idade, o policiamento sobre a forma de se comportar é iniciado, e toda vez que se nota um pequeno desvio de conduta, o sujeito em questão é repreendido, para que retorne ao caminho que a este foi destinado. Ou seja, começa aí a supressão de sua vontade, em nome de uma normalidade, mesmo que fictícia.
A pessoa trans não tem o direito de ser uma criança comum. Desde pequena, quando os adultos notam que esta não corresponde àquilo que dela é esperado, começam a controlá-la de forma tal que vão tolhendo sua liberdade. E essa criança tem apenas dois caminhos a tomar, procurando fugir do policiamento ao qual está sujeita, mesmo sem entender o porquê… fingir se enquadrar naquilo que dela é esperado ou simplesmente se isolar do restante do grupo. Boa parte das pessoas deste universo acabam optando pela segunda alternativa.
Quando uma criança se isola do grupo, deixando de interagir com estes como gostaria, é sua primeira defesa sendo acionada. Afinal, encorajadas pelos adultos, as componentes do grupo do qual o indivíduo “diferente” faz parte, começam a hostilizá-la através de comentários jocosos que criarão cicatrizes que muitas vezes não desaparecerão com o passar do tempo. E crianças costumam ser ainda mais maldosas que os adultos, quando resolvem hostilizar alguém.
Claro, sempre haverá um ombro amigo que tentará consolar essa criança “diferente”. Mas a maioria do grupo fará questão de colar nela a etiqueta de “esquisita”, na melhor das hipóteses. O engraçado é que, para anular a identidade desta, acabam por menosprezar os indivíduos representantes do gênero com o qual a criança em questão se identifica. É como se os componentes desse grupo fossem menos que aqueles do grupo no qual ela deveria sentir-se incluída. É a política de “dividir para vencer” em ação…
Resumindo… uma criança trans não tem o direito de ser quem realmente é. E essa é apenas uma pequena amostra do que virá a enfrentar no futuro que a espera. Não por outro motivo, são pessoas reservadas… ao mesmo tempo, ansiosas. Porque estão sempre em guarda, com medo que o mundo exterior consiga ler sua alma e descobrir o que realmente são. Mesmo que elas próprias não saibam qual é a sua verdade.
Tania Miranda – 11/05/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
