VIVER E DEIXAR VIVER
Vivemos em um mundo diverso e não aceitamos a diversidade. Não em um primeiro momento. As vezes, nem mesmo depois de uma vida inteira em meio a tal ambiente. E por que tal acontece? A resposta é simples… nossa visão é fechada, é como se usássemos antolhos, para que nada além daquilo que nos convém pudesse mudar nossa jornada…
O próprio ato de pensar já evidencia a diversidade ao nosso redor, simplesmente porque não há duas pessoas que sigam a mesma linha de pensamento. Podem até coincidir em um ponto ou outro, mas no geral são duas maneiras de pensar muitas vezes antagônicas, onde as convicções de um não fazem sentido algum para o outro…
São várias as âncoras que nos prendem ao nosso modo particular de pensar. E embora muitas vezes compartilhemos tais ancoras com outras pessoas, a visão de cada um a respeito da mesma é divergente… as opiniões sobre o mesmo bastião se dividem, pois cada um vê tal objeto de forma diferente…
Uma das âncoras mais utilizadas pela comunidade é, sem dúvida, a Religião. Religião, que em sua origem pode significar “reconectar o ser humano com o divino” ou mesmo “revisitar textos sagrados”… o que no final acaba sendo a mesma coisa, não é mesmo? De uma forma ou de outra, o ser humano está procurando uma validação superior para sua vida…
O problema maior não é você tentar se reconectar com o divino, mas a maneira que você entende ser o caminho para isso. Veja bem, nenhum conceito é errado, mas quando você tenta obrigar as pessoas a verem aquilo que você vê, pois não se dá conta de que seu mundo é particular, apenas seu, e ninguém mais além de você consegue visualizar seu mundo… bem, é onde o caldo começa a entornar…
O problema maior do ser humano é a radicalização. Quando este acredita estar no caminho certo rumo ao Paraíso, pois segue as Leis que lhe foram apresentadas como um mapa a ser seguido sem contestação, se esquece que uma das Leis apresentadas em seu “mapa” é o Livre Arbítrio… e, sem mais nem menos deseja obrigar a todos a sua volta a seguirem o mesmo caminho que este, sem se importar se os outros tem ou não a sua mesma convicção…
Querer “salvar” a alma de seu próximo parece, a princípio, um gesto altruísta. Mas… bem, a princípio suas intenções são boas, não há como negar. Afinal, você está desejando apenas o melhor para seu semelhante. O problema é a forma que você conduz tal processo…
Não raro, o “processo de conversão” de uma comunidade é regido pela violência. A princípio, psicológica. É quando os “futuros acólitos” são ameaçados de, ao partir deste plano, serem submetidos ao castigo eterno, um sofrimento sem fim, por toda eternidade, por não terem reconhecido o poder do deus verdadeiro, que tudo vê…
Nesse processo várias normas são impostas. E lentamente essas regras passam a ter força de lei, sendo cobrado de todos o cumprimento das mesmas, sob pena de ser marginalizado se não as seguir. Ironia das ironias… de repente você é obrigada a seguir normas nas quais não acredita nem aceita, mas se externar tal opinião pode ser castigada…
O controle vem travestido de várias formas, para que possa ser palatável, fácil de ser digerido. A “alma nobre” que detém a missão de resgatar seus semelhantes e levá-los para o “bom caminho” não se descuida nem por um momento de seu rebanho, cuidando deste com muito zelo… e aplicando -lhe corretivo, quando a situação exige…
A grande ironia disso tudo? É mais importante parecer que realmente seguir tudo aquilo que é imposto. A maioria dos acólitos de tal linha de pensamento fingem seguir as normas de conduta e, longe dos olhares fiscalizadores de seus iguais, acabam por viver uma vida paralela mais próxima de sua linha de pensamento. E está tudo bem, desde que ninguém tenha conhecimento de tais condutas…
Por qual motivo você acha que há tantas pessoas deprimidas por esse mundão sem fim? A resposta é clara e cristalina… você tem que acreditar naquilo que a maioria acredita. E seguir a maneira correta de viver, segundo o grupo no qual está inserida. Nada deve fugir às regras. Se precisar se negar para cumprir aquilo que de ti é esperado, que faça tal sacrifício. Pois no final da jornada será recompensado…
Estranho, isso, não é mesmo? Ser feliz nessa vida não é importante. O que conta, realmente, é viver segundo o modelo que lhe foi imposto. Jamais deixar de seguir tais parâmetros, pois se fizer tal coisa, deus vai te castigar. Ah, sim… o termo “deus” está em minúsculo porque estou fazendo referência a todas as religiões do mundo, não estou falando de nenhuma em especial. Mas, atenção… o que falo aqui de religião pode ser aplicado a outras forma de controle social… incluindo a política, que de certa forma pode se equiparar a uma religião, uma vez que as pessoas costumam venerar ou demonizar determinados atores que se arriscam a subir nesse palco…
Para finalizar… não deveríamos ter nenhum problema em aceitar a diversidade do ser humano. A noção de certo ou errado não deveria ser tão radical quanto é. Se nos preocupássemos mais em fazer o bem a todas as criaturas vivas… se espalhássemos Amor ao invés de Ódio e Rancor… viveríamos em um Paraíso Celestial… e sabe o que é pior? Estamos no Paraíso… mas nossa visão deturpada da vida e do mundo faz com que acabemos por transformar esse Paraíso em uma verdadeira ante câmara do Inferno… e tudo porque temos tanta certeza de que a verdade está do nosso lado que exigimos que todos passem a seguir nossos passos, pois somente nós conhecemos a verdade…
Tiremos o antolho e passemos a olhar nosso redor. Estendamos a mão para nossos irmãos, não importa qual sua linha de pensamento, desde que essa não prejudique nenhum ser vivo que habite nosso plano… gênero, sexo, limitações de qualquer espécie não podem ser entraves para que vejamos todas as pessoas ao nosso redor como deveriam ser vistas e tratadas… são todas nossas iguais e merecem respeito, tanto quanto as suas crenças quanto o seu modo de pensar. Pois, como eu já disse, não existem duas pessoas que sigam a mesma linha de pensamento. No dia em que conseguirmos, de verdade, aceitar todos como são realmente e não como gostaríamos que fossem, finalmente viveremos em paz não só com o mundo, mas também com nossa própria consciência. E, se por acaso a pessoa ao seu lado tem uma maneira de viver que não te agrada de forma nenhuma, lembre-se que a vida é dela, somente dela. Além disso, provavelmente ela também não vê muito sentido na maneira que você leva sua vida… pense nisso…
Tania Miranda – Brasil – 05/02/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
