ERA UMA VEZ…
– “Titia, me conta uma história?
– Conto, sim, meu bem… era uma vez…”
E assim, invariavelmente, se iniciava mais uma epopeia onde, depois de passar por mil agruras, o herói da história era finalmente recompensado, ficando ao lado da linda princesa, colhendo os louros da vitória. Todas as historinhas que ouvíamos na infância nos fazia sonhar, nos levando através do tempo e do espaço, rumo a um mundo onde as injustiças não tinham lugar… a lei e a ordem sempre prevaleciam no final…
Claro, havia guerras, o inimigo cometia atrocidades… mas no final era vencido, pois o mal não dura para sempre… ao menos foi isso que nos ensinaram quando éramos pequeninos. Aprendemos desde pequenos a ter Esperança, a chave para caminhar rumo à prometida Felicidade. Sempre aguardando dias melhores, aproveitando cada minuto de Alegria que se apresentava em nossa infância…
Fomos ensinados a jamais desistir de um sonho… e se, depois de adultos em algumas ocasiões simplesmente jogamos a toalha, é porque descobrimos que nem sempre a justiça prevalece. Isso porque, como diz um velho chavão… “tudo que é lei é justo, mas nem tudo que é justo é lei”…
Em todos os âmbitos sociais existem as discrepâncias. Algumas são gritantes e o povo termina por reunir-se para dar um basta nesse tipo de situação. Mas nem sempre a união faz a força, como diz o ditado popular. Isso porque, muitas vezes, o que é considerado injusto por algumas almas, por outras é perfeitamente normal. Por mais esdrúxula que seja a situação…
Nosso problema maior é que necessitamos seguir nossos ídolos. O problema? Bem, é que, com raríssimas exceções, tais modelos tem seus pés mergulhados na lama, quando não em um ambiente pior. Suas diretrizes nada trazem de bom para nossa vida, mas suas palavras são tão… como direi… convincentes, que conseguem nos fazer acreditar que aquilo que nos é prejudicial em todos os sentidos será, a longo prazo, benéfico para nosso grupo social…
Somos seres individualistas até a página dois. Abrimos mão com facilidade de nossos sonhos em prol de uma promessa de um futuro melhor. Nos sacrificamos sem pensar duas vezes, pois as palavras que nos são dirigidas nos convencem que, ao abrirmos mão de nossa individualidade, estaremos fazendo o bem para toda a comunidade…
Várias são as ferramentas usadas pelos líderes dos grupos dos quais participamos. E todas elas são direcionadas a nos convencer a nos atirar na fogueira, se esse for o desejo de nosso guru espiritual… quem já se esqueceu dos vários exemplos dos livros sagrados que nos são apresentados como modelo de comportamento? Você abrir mão de sua vida é a maior prova de amor que pode dar ao seu semelhante, já dizem os nossos guias…
O engraçado é que estes nunca dão a cara a tapa. Embora preguem uma vida de parcimônia, estão cercados de luxo e conforto. Fazem caridade. Mas com o chapéu alheio. Você pode até argumentar que “eles não tem recursos próprios, que dependem da generosidade de seus pares”. Concordo. Mas se olharmos ao nosso redor, descobriremos que esses abnegados discípulos da vida exígua na realidade tem muito mais conforto que seus acólitos…
Antes que me pergunte, não estou falando de religião. Porque, embora pareça que estou falando disso, na verdade estou comentando sobre todo tipo de liderança dos mais variados grupos, espalhados por todos os segmentos. Estes são criados para “melhorar a vida de seus seguidores”, mas na verdade, os únicos beneficiados são aqueles que, supostamente, vivem apenas da boa vontade de seus seguidores…
Isso, de certa forma, me lembra uma história em quadrinhos que lí a muito tempo atrás… um “Robin Hood moderno e seu bando de alegres folgazões” começa a roubar dos ricos para distribuir aos pobres. Mas ao doar o fruto de seu trabalho, percebem que o pobre, ao ser agraciado com o resultado da “coleta”, se torna rico e, por isso, também deve ser roubado. A solução? Criar a figura do “pobre alternativo” onde cada um dos componentes do grupo assumia o papel de “pobre por um dia”… pobreza em circuito fechado, no final das contas…
Infelizmente é assim que a sociedade funciona. Exige do cidadão comum tudo aquilo que ele tem, em nome de uma estabilidade social. E, para que não haja discrepâncias quanto à distribuição do saque, distribui-se o tesouro entre os dirigentes do grupo, de forma a manter tudo dentro dos parâmetros originais…
O final da história? Não é o “felizes para sempre”, com certeza. Afinal, onde a ganância e a injustiça imperam travestidas de cuidados aos carentes dificilmente poderão ter um final feliz. Pois toda ajuda conseguida para aliviar o sofrimento daqueles desprovidos pela sorte acaba sendo desviada de seu destino original e apenas uma parcela insignificante acaba por chegar até as mãos de quem realmente precisa…
Não estou dizendo que todos aqueles que dizem lutar pelos mais fracos realmente não o façam… há almas abnegadas que realmente lutam pelos necessitados. E, se apenas uma pequena parcela consegue resultados tão bons, imagine como seria nosso mundo se a ganância fosse extirpada definitivamente de nosso meio e todos se ajudassem, como irmãos que somos? Nesse dia viveríamos no Paraíso… e então poderíamos finalizar nossa história com “e as armas foram destruídas, pois o Amor finalmente começou a reinar sobre todos os povos. E assim viveram felizes para sempre…”
Tania Miranda – Brasil – 20/01/2026

Trabalho como Agente de Organização Escolar (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) embora no momento esteja prestando serviço junto ao TRE, no Cartório Eleitoral como Auxiliar Requisitada. Gosto de escrever, tenho dois livros publicados, “Tirésias, a dualidade da alma humana”(autobiografia), pela Editora Verso e Prosa e “A volta do Justiceiro”, romance explorando o folclore brasileiro, publicado pela UICLAP. Publico crônicas diariamente em alguns grupos, meu perfil e meu blog… (taniamirandablog.blogspot .com)… sou casada, tenho quatro filhos e dois netos, sendo que minha neta mora comigo desde os três meses de idade…
